

BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher
Foi embora
Ela foi embora, sem dizer adeus. E não, esse não é um texto poético cheio de metáforas para chegar ao final e dizer que ela era alguma coisa. Por isso digo desde já: a vista, minha tão querida vista, foi embora.
Eu faço parte de um grupo muito seleto de pessoas estranhas que admiram os pequenos detalhes da vida. E eu adorava o fato de morar em São Paulo e ter um terreno baldio ao lado da minha janela.
Ok, a vista da minha janela não dava para o Pão de Açúcar, para uma bela praia, ou até mesmo para o verde do Parque do Ibirapuera. A minha vista é voltada para a Av Paulista, mas não conseguia vê-la na verdade. Alguns prédios atrapalhavam a visão, mas dava para ver os prédios e a antena da Record iluminada durante a noite a invadir o meu quarto como se fosse um plágio muito mal feito da Torre Eiffel.
Mas agora tudo se foi. Como a cidade de São Paulo não perdoa um mísero terreno vazio no meio de um bairro em potencial, o meu também não foi esquecido.
Além de agüentar as batucadas dos pedreiros que começam logo as 7 da matina a assobiar músicas do Fábio Júnior, antes de ligarem as maquinas barulhentas, agora eles levaram junto ao meu sono a minha vista.
E tenho que dizer que sinto saudade dela todos os dias. Assim como sinto saudade daquele amor que não foi de verdade. Que veio, fingiu ser um monumento histórico, e não passava de um plágio. Mas mesmo assim dá saudade quando coisas que admiramos, e nem sabem que são admiradas (e por vezes nem merecem esse apreço), vão embora pela mão humana.
Seja pela de um pedreiro com mal gosto musical, seja pela garota que eu nem percebi que era uma ameaça a minha felicidade...