Chiclete Na Panela


E o Rio de Janeiro ficou, por alguns minutos, mais bonito

 

Às vezes me pergunto por que decido colocar meus pés no mundo das baladas de novo. E pior, por que continuo a ir sozinha com uma amiga bonita, que logo vai ser cantada por um cara e vai me abandonar no meio da pista.

Mas ok, era só mais essa vez, afinal, não é todo dia que se está no Rio de Janeiro, em pleno alto verão, cheio de festas com famosos e contatos profissionais em potencial. Ahhh quem eu quero enganar, o único contato que eu queria fazer não tinha nada de profissionalismo. Mas essa nunca deixa de ser uma boa desculpa para infiltrar minha cara paulistana (avermelhada pelo excesso de sol) em uma das festas mais badaladas da noite carioca.

Sem delongas, lá estava eu, duas horas depois do inicio da festa, já abandonada pela minha amiga bonita, e também pelo DJ, que decidiu tocar todas as piores músicas do inicio dos anos 80, e pelos meus pés, que são os primeiros a quererem ir para a casa, sempre.

Abandonada e levemente gripada, a solução não era outra a não ser ficar balançando de um lado para o outro perto de um grupo cheio de pessoas, para parecer que estava com eles. Claro que quando notada como intrusa, essas pessoas se fecharam no seu mundo e me excluíram com todo prazer. Esse é o momento que dá a maior vontade de cruzar os braços e encostar em algum lugar, mas não. Cruzar os braços na balada é assinar o suicídio social e pedir para que um bêbado chato venha mexer com você, falando para não ser tão desanimada e ir dançar com ele no meio da pista. Braços cruzados não Raquel, nunca.

Outra maneira de fingir que não está sozinha e infeliz em uma festa é procurar um bom lugar para sentar, só para parecer que está dando um tempo, ou fugindo de um ex-namorado, ou simplesmente mandando uma mensagem para alguém – ter um celular neste momento é crucial.

Tudo que eu queria naquele momento era estar com meu All Star sujo e incrivelmente confortável, e minha camiseta da Amelie Poulain, para que algum reparador me apontasse dizendo: Veja, uma paulista fora do ninho.

Mas isso nem era necessário, eram tantas mulheres bonitas e malhadas naquela festa, que passar despercebida com cara de turista foi a coisa mais fácil que fiz durante as férias.

Foi quando, de repente, ele sentou na cadeira ao meu lado.

- Oi, cansou da festa? – perguntou o cara, o que eu mais queria ver no mundo no mundo dos famosos, o motivo por eu ter pago a entrada mais cara da minha vida, ali, do meu lado.

Seja inteligente, seja inteligente, pensava minha cabeça na esperança de chamar a atenção de alguma maneira, que eu esperava que mais nenhuma outra menina/modelete da festa conseguiria.

- Éhhh... um pouco.

Caraca Raquel, isso não foi inteligente.

- Você é de São Paulo? – perguntou ele olhando bem no fundo dos meus olhos.

- Pois é, como descobriu? Pela falta de jeito na noite carioca?

- Não, foi mais pela marca de biquíni que mostra que você torrou no sol, como se nunca o tivera visto!

Aiai... esses atores que pagam de carioca. Mas eu estava tão feliz de falar com ele que ri como se fosse a coisa mais engraçada que tivesse ouvido na vida.

- Na verdade desconfiei que fosse de SP, pois você estava tirando foto da decoração. Ninguém no Rio tira fotos de coisas que acham bonitas.

Pois é, e nem de famosos... infelizmente, pois meu maior desejo neste momento era arrancar minha máquina fotográfica da bolsa e fazer um book desse cara. E também preciso lembrar, a decoração era artística e criativa o suficiente para que eu quisesse guardar para sempre.

Assim continuamos a conversar. Ele me perguntou sobre minha vida, eu contei tudo, sem esconder quase nenhuma parte. E eu perguntava sobre ele, como se já não soubesse tudo que se poderia saber.

Eu odeio livros de auto-ajuda, mas quer saber? Tudo que eu queria naquele momento era já ter lido algum com o tema: 10 maneiras de agir quando conhecer um famoso que admira muito sem deixá-lo perceber que você o admira muito.

Ao reparar ao meu redor, me senti em um episódio de Gossip Girl, no qual todas as meninas da festa nos olhavam, me recriminando: Como assim, ele está falando com essa esquisita que tem a coragem de vir a uma festa de cabelo enrolado??? Impossível.

Eu também achava impossível, até o momento que ele chegou sua cadeira mais perto da minha e pegou da minha mão, encostando levemente seus dedos nos meus, para pegar minha câmera, enquanto eu mostrava as fotos das paisagens cariocas que tinha feito.

- Olha só... eu já tinha esquecido como a vista do Pão de Açúcar era bonita. Faz tantos anos que não subo lá.

Bonito era ele, olhando atentamente minha câmera e pegando no meu joelho toda vez que queria me mostrar sua foto favorita.

- Você é uma artista, ham? Tirou fotos lindas.

- Pois é, eu tiraria uma com você agora se não fosse brega tirar fotos de famosos no Rio de Janeiro.

Ele riu muito. Foi então que apontou a câmera para nós dois, segurando com força na minha cintura, e tirou nossa foto. Ele me entregou a câmera sorrindo e disse:

- Essa é para você não se esquecer do chato que veio te incomodar enquanto você estava entediada com a balada.

Como se fosse possível esquecer aquele momento. Quando decidi tomar alguma atitude, convidá-lo para ir de novo ao Pão de Açúcar, ou algo menos turístico, o celular dele tocou. Me pediu licença para atender. Ficou alguns minutos em pé, enquanto os paparazzos se posicionavam, esperando, assim como eu, que entre nós saísse uma boa fofoca para as manhãs de segunda-feira.

- Desculpe, eu estou esperando uma pessoa. Ela está lá na entrada e não quer subir. Preciso ir.

Ir? Pra onde? Com quem? Como assim?

Deveria existir um livro com o nome: Como ser famoso e não quebrar o coração das pobrezinhas que são apaixonadas por nós e não temos a responsabilidade de saber isso.

- Ok – respondi seca, querendo jogar algo pesado na testa dele.

- Foi um prazer te conhecer Raquel, a jornalista de São Paulo que tem o sorriso mais bonito que já vi. Quando estiver por lá eu te ligo para fazermos algo.

- Ahh claro, assim que você pedir meu número de telefone, certo?

Risos a parte, ele se foi no meio da multidão, com direito a gelo seco e luzes coloridas, para simboliza que aquele era o fim, não só de um momento, mas também de um sonho. Enquanto as menina/modeletes/chapinhas me olhavam com pena e o balãozinho acima de suas cabeças estava escrito: pobrezinha, achou mesmo que ele estaria afim dela...

É, eu achei.

Assim como muitas vezes achei que lugares cheios de pessoas lindas, ricas e famosas também fosse meu lugar, mas não sei mais se acredito nisso, afinal, se não posso usar minha blusinha da Amelie e meu All Star encardido, qual a graça disso tudo?



Escrito por Rachs às 01h02
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