

BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher
Já
Já brinquei de boneca
Já doei meus brinquedos
Já me fingi de morta
Já acordei morrendo de medo
Aprendi a contar
A pular corda
A andar de bicicleta
Depois aprendi a dirigir
Tentei tocar piano
Joguei futebol
E quase me afoguei na natação
Já cai e levantei
Já sonhei e desisti
Já acreditei e aconteceu
Senti borboletas no estômago
Fiquei noites sem dormir pensando em alguém
E dormi noites inteiras abraçada com minhas ilusões
Já contei estrelas, pelo menos tentei
Já perdi as contas de quantos favores prestei
Já corri atrás do nada
Já abracei sentindo saudade antecipada
Já chorei de dor
Já chorei por amor
Já chorei de rir
Já ri para não chorar
Fiz promessas para o espelho
Não cumpri quase nenhuma
Já matei barata
Já gritei de medo
Minhas pernas já tremeram de nervosismo
E também de alívio
Já li Machado de Assis
Gabriel Garcia
Revistas de beleza
e a Bíblia
Já quis fazer tatuagem
Já quis andar de jet ski
Já quis ser uma heroína de TV
Já quis atravessar paredes
Já sonhei que era chique e famosa
Já dei tchau para quem eu queria que ficasse
Já fiquei com quem eu queria que fosse embora
Já briguei com quem me maltratou
Já parei de telefonar para quem não merece mais a minha voz
Já peguei meu coração no chão
E levei para a enfermaria
Para tomar glicose
Já comi muito
Já fiz dieta
Já perdi o fôlego
E prendi a respiração para ver até quanto eu agüentava
Já pintei o cabelo
A unha
E o céu de lilás, pois o lápis azul tinha acabado
Já andei fora da linha
Foi então que errei o passo
Perdi a mão
Quebrei a cabeça
Bati o pé
E não consegui nada
Só a sensação de fracasso
Já fui de direita
Já fui de esquerda
Já acreditei em um mundo melhor
Não fiz nada para melhorá-lo
Já estourei o cartão de crédito (mais de uma vez)
Já economizei para viajar
Já viajei em meus pensamentos
Já apostei dinheiro
Já fingi que entendi
Já entendi mais do que queria
Já amei quem não me amava
Já estive dos dois lados do muro
Já bati com a cara no muro